Contrafactual: "E se não tivesse acontecido?"
Camila Favaretto
19 de dezembro de 2025
Esse artigo é uma adaptação do material original, disponível para consulta.
Em uma rodada comum de debates, o que normalmente se espera dos debatedores é a apresentação de argumentos lógicos, impactantes e bem contextualizados. No entanto, em alguns tipos de moção — especialmente aquelas começadas com “Esta Casa prefere um mundo em que…” ou “Esta Casa lamenta…” — não basta argumentar com base no mundo que conhecemos. É preciso criar um mundo que nunca existiu, mas poderia ter existido. É aí que entra o contrafactual.
O que é contrafactual?
No universo dos debates, um contrafactual é o processo de descrever um mundo alternativo — uma realidade que divergiu da nossa a partir de um ponto específico no tempo. Diferente de uma política a ser implementada no presente (como “EC subsidiaria carros elétricos”), moções contrafactuais pedem que imaginemos como o mundo teria se desenvolvido se um evento não tivesse ocorrido, ou se alguma característica da realidade fosse removida desde sempre.
Por exemplo:
- Em “Esta Casa lamenta a ascensão de influenciadores de mídia social”, o debate não é sobre a ascensão hoje em dia, mas sobre como teria sido o mundo se essa ascensão nunca tivesse ocorrido. É necessário presumir um padrão temporal, como por exemplo, nos últimos 10 ou 15 anos. É inviável falar sobre lamentar a ascensão das mídias sociais e tratar de 100, 200 anos atrás, por exemplo, tendo em vista que redes sociais sequer existiam.
- Já em “EC prefere um mundo onde a religião organizada nunca existiu”, a discussão gira em torno de como sociedades, moralidades e estruturas de poder se desenvolveriam nesse universo alternativo, desde seus primórdios. Presumivelmente, isso é algo que aconteceu a muito tempo no passado, e os argumentos que você traz podem ser mais abrangentes e mais amplos do que os específicos para os dias modernos. Mais do que isso, não estamos debatendo a religião sumir hoje ou deixar de existir a partir da moção, mas sim, estamos debatendo um mundo em que a religião organizada nunca passou a existir. Assim, qualquer argumento como “a reação da população quanto a remoção da religião seria negativa” ou que “as pessoas sentiriam falta do seu grupo religioso” não se adequa à moção, pois no mundo contrafactual as pessoas nunca tiveram contato com a religião ou com o grupo de sua religião organizada.
Construindo e contestando mundos: a missão de cada bancada
GOVERNO
Nas moções contrafactuais, o governo tem uma tarefa central: imaginar e defender um mundo alternativo. Isso começa escolhendo um ponto de inflexão, ou seja, o momento exato em que esse mundo hipotético começou a se diferenciar do nosso. A partir daí, cabe à equipe mostrar por que é plausível que esse mundo teria se desenvolvido do jeito que estão propondo.
Importante lembrar que o governo não tem fiat nesses casos. Ou seja, não pode simplesmente decretar que o novo mundo funciona de determinada forma — precisa convencer adjudicadores e adversários de que essa realidade faria sentido na ausência do elemento removido ou alterado pela moção.
Caso governo forneça um contrafactual pouco plausível ou com poucas garantias de que o novo mundo de fato seria da forma como estão demonstrando, oposições podem desafiar o contrafactual trabalhando em um novo cenário JUSTIFICANDO os motivos de porque o seu é mais plausível do que o cenário de governo.
Por fim, fica o lembrete: seja estratégico, mas justo. Sempre busque fornecer uma definição justa que permita que o debate aconteça. Isso não significa que a sua definição não deva ser favorável ao seu lado, mas não deve ser implausível aos olhos do eleitor médio e, consequentemente, injusto. Portanto, certifique-se de que a definição que você está fornecendo esteja sempre dentro do razoável para esses debates.
OPOSIÇÃO
Espera-se que a oposição defenda o status quo, o mundo como ele é agora. Portanto, você não tenta propor um mundo diferente, mas precisa defender o mundo atual e não qualquer outra coisa.
Um erro comum da oposição é tentar "aplaudir" o status quo ou inventar outro mundo alternativo. Não é necessário. Seu papel é defender que o mundo como ele é hoje é preferível ao contrafactual apresentado, mesmo que você reconheça suas falhas.
Além disso, a oposição pode e deve disputar o contrafactual. Se o governo pinta um cenário fantasioso ou com lógica frouxa, você pode construir um contrafactual concorrente mais plausível. Afinal, como o governo não tem fiat, ninguém tem o monopólio da ficção plausível.
Como construir um contrafactual eficaz
1. Escolha um ponto de inflexão claro (e coerente)
Para que seu contrafactual funcione, é preciso definir quando o mundo alternativo começou a se desviar do nosso. E esse ponto precisa fazer sentido. Imagine a moção “C lamenta a escolha de Joe Biden como candidato democrata às eleições de 2020”. O ponto de inflexão está claro: o momento eleitoral em 2020, sua divergência começa no processo eleitoral daquele ano — e não na fundação do Partido Democrata.
Evitar saltos temporais desconexos ajuda a manter a lógica interna do seu caso. Em resumo: identifique onde a estrada bifurcou — e parta dali, não de outro lugar.
2. Justifique causalidades
O mundo que você está pintando precisa parecer possível. Mais do que isso, não basta declarar que o mundo seria melhor (ou pior). Você precisa mostrar por quê. Como um primeiro exemplo, não basta dizer que “sem redes sociais, o jornalismo seria mais confiável” — é necessário mostrar por que essa transição faz sentido, como funcionariam os fluxos de informação, quais tecnologias predominariam e como o público reagiria a elas, entre outros.
Em um segundo exemplo, dizer que “sem a cultura dos super-heróis, o cinema seria mais diversificado” só se sustenta se você explicar como os recursos, o interesse do público e o mercado audiovisual responderiam à ausência desse gênero. Quem ocuparia esse espaço? Quais estúdios teriam mais influência? Como isso afetaria representatividade, bilheteria, crítica?
O objetivo é amarrar causas e consequências com lógica e credibilidade. O seu contrafactual só se torna persuasivo quando o ouvinte entende o caminho entre ‘A’ e ‘B’.
3. Delimite o escopo do debate
Muitos debatedores escorregam ao supor que estão debatendo “remover a religião hoje”, como no exemplo anterior, quando a moção exige imaginar um mundo em que ela nunca existiu.
Isso muda tudo: ninguém sente falta de algo que nunca existiu. Não há fiéis desamparados nem resistência institucional. O que existe é uma sociedade que cresceu e se organizou sem essa influência desde o início. Compreender esse escopo evita argumentos deslocados e ajuda a construir uma narrativa mais coerente com o que realmente está em debate.
4. Ajuste seu tempo de fala à complexidade do contrafactual
Nem todo contrafactual exige a mesma quantidade de explicação. Alguns cenários são intuitivos e facilmente compreendidos pelo público. Por exemplo, em uma moção como “Esta Casa lamenta a popularização dos reality shows”, é relativamente fácil imaginar um mundo onde programas como Big Brother ou A Fazenda nunca tivessem ganhado espaço — o público pode intuir que o entretenimento televisivo teria seguido por outros caminhos, como séries ou programas jornalísticos. Nesse caso, basta uma descrição breve e plausível para avançar com seus argumentos principais.
Por outro lado, moções mais abstratas ou radicais, como “Esta Casa prefere um mundo onde os seres humanos nunca desenvolveram a linguagem verbal”, exigem muito mais trabalho. Aqui, é necessário explicar não só o ponto de inflexão, mas também reconstruir a forma como a sociedade teria evoluído — como funcionariam as relações sociais, a educação, a política, a ciência... e por que tudo isso ainda faria sentido. Quanto mais contra-intuitivo ou distante da realidade for o cenário, mais tempo você deve dedicar a justificar que esse mundo faz sentido.
A regra é simples: quanto mais estranho ou improvável for o seu contrafactual, mais robusta deve ser sua construção analítica. E isso significa usar bem os minutos iniciais do seu discurso para criar um cenário que o adjudicador consiga visualizar, acreditar e levar a sério.
Erros comuns que prejudicam seu caso em moções de contrafactual
1. Esquecer de ser comparativo
Pode parecer óbvio, mas muita gente, ao construir um mundo alternativo, esquece de fazer o básico: comparar. E em debates contrafactuais, a comparação é tudo.
Não basta dizer que o seu mundo é bom — é preciso explicar por que ele é melhor do que o status quo, ou por que é menos problemático do que o cenário construído pela outra bancada. Assim como em moções de política ou de princípio, o peso do impacto só aparece quando há contraste. Em outras palavras: seu mundo precisa ser mais justo, mais estável, mais seguro, entre outros... em relação ao outro.
2. Criar um contrafactual que não se sustenta
Outro erro frequente é apresentar um contrafactual implausível ou mal explicado. Às vezes, a ideia parece interessante, mas, sem garantias mínimas de que esse mundo realmente faria sentido, a narrativa perde força.
Pense em uma moção como “Esta Casa lamenta a ascensão da cultura do coaching”. Se o governo disser que, nesse mundo alternativo, as pessoas buscariam apoio exclusivamente na filosofia clássica, essa projeção pode soar, à primeira vista, pouco intuitiva. Para sustentar essa linha argumentativa, seria indispensável apresentar justificativas robustas que demonstrem de maneira plausível por que e como essa substituição ocorreria. Na ausência dessas garantias, a oposição encontrará terreno fértil para questionar a coerência e a viabilidade do mundo proposto.
Em síntese, um bom contrafactual não precisa ser óbvio, mas deve necessariamente ser verossímil.
3. Não conectar os impactos ao contrafactual
Por fim, um equívoco de natureza mais analítica — mas que frequentemente distingue discursos esteticamente bem construídos daqueles verdadeiramente competitivos — é a falha em vincular, de forma consistente, as consequências alegadas ao mundo alternativo proposto.
Tome-se como exemplo a moção “Esta Casa lamenta a percepção de que soldados são heróis”. Suponha que o Primeiro-Ministro argumente que, no cenário contrafactual, veteranos de guerra continuariam sendo bem tratados e haveria um aumento significativo na investigação de crimes de guerra, o que, segundo ele, seria desejável.
Embora à primeira vista esse cenário possa parecer promissor, ele carece de uma etapa essencial: a demonstração da origem causal dessas consequências. Se o tratamento respeitoso aos veteranos decorre, em grande medida, da narrativa de que são heróis, então a remoção dessa percepção pode comprometer diretamente o efeito que se deseja preservar. Da mesma forma, é necessário explicar por que haveria maior empenho estatal na investigação de crimes de guerra: que mudanças institucionais ou incentivos estruturais decorreriam da nova percepção pública? Quais mecanismos justificariam esse resultado?
Ademais, é plausível argumentar que, sem a figura heroica a ser protegida, governos poderiam sentir-se ainda menos pressionados a dar transparência a tais investigações, seja por razões de conveniência política, seja por interesses estratégicos.
Em síntese, a ausência de vínculos claros entre o contrafactual e os impactos alegados compromete a integridade do argumento. E nesse vácuo de causalidade, a oposição encontra terreno fértil para desmantelar toda a linha governista.